so little to say… and so much time.

Inception

Posted in Não classificado by partyguest on Agosto 16, 2010

Christopher Nolan é um ilusionista. Um professor de ilusionismo, talvez. Seus truques têm funcionado com a maioria das pessoas, que sempre dão aquele sorriso besta, embasbacados, no fim de cada um de seus filmes. Também já me deixei levar por seus números. Duas vezes, para ser mais exato.

A primeira vez foi em ‘Amnésia’ (Memento, 2000). Revi o filme umas 3 vezes em algumas semanas, e aquele sorriso, aquela sensação de que havia algo de extraordinário ali, não ia embora. Ainda gosto bastante do filme. Não tenho mais 15 anos, no entanto. Hoje eu percebo que aquele truque de 2000 não era tão difícil assim. Se quiséssemos, poderíamos recria-lo, nos bastaria um bom montador e um roteiro competente. Ta dá!

Umas das estratégias do ilusionismo é desviar a atenção da platéia que, absorta, não consegue ver qual é, de fato, o truque. Um prestidigitador consegue fazer isso inúmeras vezes com platéias diferentes, mas não tem muito sucesso quando repete o mesmo truque para os mesmos espectadores. É por isso que cinema não é mágica, é muito mais que isso.

Nolan apostou no mesmo ilusionismo em seus filmes seguintes. O tema era diferente, a montagem menos confusa, mas a idéia era a mesma. Ele colocou um paletó e uma gravata em seus filmes, e fingiu que eles tinham conteúdo. Não cai, mas muita gente sim. Não engulo seu reboot da franquia ‘Batman’, tampouco sua continuação. Pra mim, aquilo é cinemão tradicional, forjado numa roupa chique. Cinemão muita gente faz, explosão idem. Preciso de muito mais que isso. ‘O Cavaleiro das Trevas’ (The Dark Knight, 2008), no entanto, cresceu muito, em parte por conta de um trunfo que nenhum de seus outros filmes teve: o hype em cima de Heath Ledger. Hype merecido, devemos admitir, pois Heath faz um dos vilões mais assustadores que já vi, em uma atuação impecável.

O que aconteceu foi que, depois de alguns anos torcendo o bico para o cinema de Nolan, li sobre ‘A Origem’ (Inception, 2010), projeto que o diretor desenvolvia há 10 anos. Isso me prendeu. Adoro projetos de décadas, ambiciosos, perfeccionistas. Me empolguei e li tudo sobre a produção, durante os últimos meses. E fui ver.

Pela segunda vez em 10 anos me deixei levar e entrei na ilusão. Não me arrependo e explico por quê. O que Nolan faz em ‘A Origem’ é pegar a complexidade de um tema com infinitas camadas e traduzir para uma linguagem que, muitas vezes, não tem camada alguma, mal tem superfície, em alguns casos. O cinema de ação é tão antigo quanto andar para frente. Mas poucos sabem fazer dele um bom cinema, um cinema com conteúdo. Impressionar visualmente muitos conseguem, mas poucas são as vezes que os filmes passam disso. Nolan impressiona. ‘A Origem’ é fantástico, em vários sentidos. Ele trata de um universo fantástico, o dos sonhos, que nos é apresentado como uma fantasia visual e que nos prende na tela durante duas horas e meia. Me deixei prender e saí da sala achando que tinha visto um quase-marco histórico da cinematografia. Mas, assim como em um sonho prestes a acabar, este mundo que eu construí durante essas duas horas e meia, começou a desmoronar pouco depois que eu saí do cinema. Acordei, estava encantado com aquilo tudo, mas tinha plena consciência de que havia sido enganado.

Os filmes de Nolan, apesar de carregarem esta mágica como marca registrada, são quase genéricos, na maioria das vezes. E com ‘A Origem’ não é diferente. Fora os belíssimos efeitos visuais, mecânicos e digitais, o filme tem muito pouco a oferecer. O roteiro não é ruim, mas não é amarrado o suficiente, amarrado como um filme desta complexidade exige para ser bom. Os atores parecem por vezes desconectados com seus personagens, como se eles estivessem o tempo todo com aquela sensação que a gente tem quando está sonhando e se dá conta disso, acordando imediatamente. A trilha de Hans Zimmer (com participação de Johnny Marr) é correta, mas não é nada mais, apesar de deixar um “baauuum” grudado em sua cabeça. O filme se propõe a ser um cinemão de ação com conteúdo. Talvez o que ‘Matrix’ (The Matrix, 1999) tenha sido 11 anos atrás. Não tenho dúvida que ‘A Origem’ é um cinemão de ação. Mas o conteúdo, mesmo estando ali, é coadjuvante. Não por pura predileção do diretor. Eu diria que é incompetência mesmo. Os personagens fazem questão de explicar tudo, o tempo todo. Saímos de lá sabendo como entrar em um sonho, como inserir e extrair informações. E a personagem de Ellen Page está lá justamente para ser nossa representante, com uma procuração do espectador perdido, para extrair tudo o que a gente precisa saber. Mas de que importam todas aquelas informações, se a solução que Nolan sempre acha para cada beco sem saída é pular o muro e inventar um caminho novo que, mais uma vez, é explicado à exaustão?

O  diretor tem medo é de cair no lugar comum do cinema de ação/aventura. Eu não coloco ele no mesmo saco dos diretores dos blockbusters mais descerebrados de Hollywood. Acho que Nolan é competente e bem intencionado. No entanto, não tem o talento que muitos acham que ele tem, mas que até ele duvida. Duvida tanto, que se esconde atrás da capa e da cartola. O maior problema de A ‘Origem’ talvez tenha sido o seu tempo de gestação. Nolan talvez tenha repetido o truque tantas vezes para ele mesmo durante estes 10 anos, que ele perdeu o sentido. E se nem ele acredita, por que deveríamos?

Nota: 6,0

Metacritic

Tomatometer

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