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Doubt

Posted in Oscar by partyguest on Fevereiro 13, 2009

Doubt

Doubt é estranho. Ele é um filme sério, bem sério. Mas isso não é suficiente.

Doubt (Dúvida, no Brasil) é um filme de John Patrick Shanley. E quando eu digo que é dele, é dele mesmo. Ele escreveu a peça que inspirou a obra, escreveu o roteiro e a dirigiu. Fora esses fatores eu tenho mais uma razão pra dizer que o filme é dele: Doubt é provavelmente um filme feito do diretor para ele mesmo. Algo como afagar o próprio ego. Na cabeça de Shanley esse filme deve funcionar bem melhor do que na tela. E, quem sabe, nos palcos ele consiga alçar vôos mais altos.
Esse é o típico filme de ator (nada muito estranho, pois todo ano vemos dezenas desses concorrendo aos principais prêmios) e não é um filme ruim, que é o que você deve estar pensando depois de ter lido isso que eu escrevi acima. É apenas uma obra que não dá muito certo, mas não incomoda. Vou falar um pouco dele e depois vamos ao que realmente importa.

Doubt acompanha alguns dias em uma escola católica dirigida por uma freira (não sei se ela é freira, mas parece) ranzinza, autoritária e (considerada) retrógrada que não tem um bom relacionamento com um padre liberal que pela hierarquia católica é o superior dela. Esse padre é acusado por tal freira de aliciar um aluno negro (o único) da escola, a pessoa que alerta a freira ranzinza sobre o acontecido é uma outra freira, nada ranzinza. O enredo gira, de forma bem simples e quieta, em torno do acontecido. Será que o padre fez isso mesmo, ou será que foi apenas impressão das freiras? Fica a DÚVIDA. Simples né? Pronto, é basicamente o que você precisa saber. Agora vamos ao que importa.

Lembra que eu disse que Doubt é um filme de ator? Pois é a mais pura verdade. Vamos por partes.

A primeira freira (a ranzinza) é interpretada por Meryl Streep. Meryl é uma atriz que sempre esteve no meu top 10 e no meu coração. A maneira como Streep interpreta a irmã Beauvier incomoda um pouco no início, talvez esteja um grau acima do nível de afetação que a gente está acostumado a lidar quando assunto é uma boa atuação. E isso em si não é ruim, acontece sempre com muitos atores e acabamos nos acostumando com o perfil da atuação. E com Streep não é diferente. Interpretando a freira ranzinza, ela está tão correta que a gente acaba se sentindo confortável com o nível de malvadez que ela carrega debaixo daquela hábito.
A segunda freira é interpretada por Amy Adams, a bela Bonnie de Charlie Wilson’s War. Adams está tão bem no filme que eu ouso dizer (temendo pedradas e retaliações até do wordpress, posso até ter o blog fechado por isso) que ela está melhor que Streep em todo o filme. A atuação de Adams é tão delicada que se eu a visse na rua eu, nem um pouco cristão, pediria a benção dela na hora. A voz dela está no tom certo, suas expressões transmitem uma fraqueza impressionante, carga necessária para o papel que o personagem tem que exercer no filme.
Por fim, o padre. Philip Seymour Hoffman mais uma vez se entrega completamente a um personagem. É impressionante como a cada filme eu gosto mais desse ator que é, sem dúvida, o melhor de sua geração (o que não é pouca coisa). Hoffman consegue oscilar entre a delicadeza e o ódio em um piscar de olhos. Sua interpretação do padre acusado de pedofilia, é tão intensa que não existe (isso mesmo que você leu, não existe) outro ator que pudesse fazer esse papel de uma forma tão fechada, sem uma falha sequer, sem escorregar em uma expressão. Qualquer tentativa iria soar tão secundária como Toby Jones interpretando Capote em “Infamous” (2006). É bom? Sim, ótimo. É Philip S. Hoffman? Não, desculpe.

Dúvida foi indicado a 5 Oscars (Atriz, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante [2 indicações] e Roteiro Adaptado). Existe uma boa chance de Streep ganhar mais um Oscar, talvez por uma identificação maior dos votantes do que por sua atuação, apesar de muito boa no papel. Não acredito que Amy Adams tenha alguma chance. Já Viola Davis, apesar de aparecer por cinco minutos no filme, pode assustar a torcida de Penélope Cruz e levar esse pra casa. Nada merecido se isso acontecer. O roteiro adaptado não é um prêmio muito provável nem muito esperado também. “Slumdog” tem quilômetros de chance à frente. E quanto a Hoffman, ele podia ter tido a melhor atuação do mundo, da história do cinema. Nada tira o prêmio póstumo de Heath Ledger. Merecido, diga-se de passagem.

Acho que me estendi mais do que o filme merece. Doubt não é filme ruim, apenas é um filme que não funciona muito bem. Sua carga política não marca território. Sua crítica religiosa idem. Mas ele vale muito a pena pelo deathmatch travado por esses três atores em cena. E minha nota vai pra eles, que são o filme.

Philip: 9,0
Meryl: 8,5

Amy: 9,0

Média do Metacritic

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